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Lutero e o valor das línguas bíblicas


A importância do estudo do hebraico e do grego sempre fora destacada pelas grandes mentes do cristianismo. De fato é difícil pensar em alguém que tenha feito um curso sério de teologia onde não aprendesse o valor desses idiomas para a interpretação das Escrituras e o cumprimento eficaz do chamado que recebeu do Senhor. Todavia, sabemos que alguns estudantes de teologia, por incrível que pareça e muitos pastores, se distanciam do estudo das línguas bíblicas por não reconhecerem sua importância como uma ferramenta necessária na interpretação das Escrituras.
J. Gresham Machen em um artigo intitulado: The minister and his greek Testament¹, reconhece tal distanciamento e os seus possíveis motivos.
Machen reconhecia que um desses motivos radicava em uma tendência moderna na educação a qual prioriza estudos práticos em detrimento dos estudos em humanidades. Para ele, o conceito moderno do propósito da educação é meramente de capacitar o homem a viver, mas não de dar-lhe aquelas coisas na vida que a tornaria digna de ser vivida. Paralelamente ele reconhece um desinteresse interno e pessoal do ministro. O pastor havia se tornado menos interessado em sua bíblia. Suas múltiplas atividades acabaram por reforçar essa atitude: “Ela não é descartada, mas é vista apenas como mais um recurso, ainda quando, todavia, seja a fonte principal da inspiração do pregador”. E conclui: O pastor deixou de ser um especialista na bíblia, para tornar-se um tipo de administrador geral de assuntos de uma congregação.
Michael H. Burer, em : The² place of greek and hebrew in minister’s education, engrossa o coro com Machen. Lembra saudosamente de quando a educação teológica nos Estados Unidos era muita rigorosa. Tempo em que os ministros sabiam grego, hebraico e latim. E eram treinados para usarem suas mentes no ministério, tanto quanto seus corações. Burer finaliza: A tendência atual é em direção a uma ênfase da prática sobre e contra o bom argumento.
Antes mesmo de Machen e Burer, Martinho Lutero já havia chamado atenção para a importância do estudo das línguas bíblicas.
Em uma carta³ endereçada aos vereadores de todas as cidades da Alemanha recomendando o estabelecimento e a manutenção de escolas cristãs, Lutero fala da importância do estudo das línguas bíblicas. Ele recomenda que se honrem essas línguas acima de todas as outras que existem. Para ele o hebraico e grego eram línguas santas, pois serviram como instrumento para manifestação da palavra de Deus. Afirmava que as línguas originais são o invólucro no qual está contida a espada do Espírito. Para o reformador alemão pode ser arriscado e perigoso expor as Escrituras sem o devido conhecimento das línguas originais. Ele cita alguns teólogos da patrística e erros que eles cometeram pelo fato de não terem o domínio das línguas originais. E acrescenta que mesmo o que eles disseram sobre determinado assunto por vezes fosse verdade, eles não poderiam ter certeza se realmente estava presente na passagem onde a interpretação deles pensava ter encontrado.
Lutero fazia uma clara distinção entre um pregador simples da fé e uma pessoa que expõe a Escritura, um teólogo, um especialista, um pastor. Para ele um pregador simples tem muitas passagens claras e textos disponíveis através de traduções, com os quais ele pode ensinar a Cristo, levar uma vida santa, e pregar aos outros. Mas quando se trata de interpretar as Escrituras e entrar em disputa com aqueles que a citam incorretamente, ele deverá estar à altura da tarefa, o que não pode ser feito sem o conhecimento dos idiomas originais - hebraico e grego. “Deve sempre haver tais profetas na igreja cristã que possam cavar as Escrituras, e expô-las, e continuar disputas. Uma vida santa, e uma doutrina reta não são suficientes para livrar o pregador do erro”.
Lutero citava os valdenses como exemplo de negligência ao estudo das línguas bíblicas. Afirma que mesmo que eles pudessem ensinar a verdade, muitas vezes perdiam o sentido do texto e, portanto, não estavam equipados nem aptos para defender a fé contra o erro: Há um grande perigo em falar das coisas de Deus, de uma maneira diferente da que o próprio Deus emprega”.
O reformador alemão via no estudo das línguas originais uma forma de proteger o evangelho de nossas próprias opiniões: “Sem as línguas originais corremos o risco de perder o evangelho, ou mesmo comprometer o sentido correto das suas palavras”. Ele coloca isso em um tom dramático: É inevitável que, a menos que as línguas permaneçam, o evangelho deve finalmente perecer.
O próprio entendimento do evangelho depende do conhecimento dos originais, e essa é uma questão chave em Lutero. Para ele a atividade teológica envolvia também filologia. É importante lembrar que Lutero usava o termo4 “Evangelho” para se referir a todo o Novo Testamento.
Marie Ann Wangen Krahn5 afirma que as descobertas centrais do pensamento de Lutero são frutos do seu estudo das línguas originais da bíblia, especialmente do hebraico, como por exemplo, sua compreensão sobre a justiça de Deus, que foi possível a partir da sua descoberta do sentido causativo dos troncos hif’il e hof al de vários verbos. E Krahn finaliza: A reforma se fundamenta nas descobertas feitas por Lutero através da maneira humanista com a qual ele releu a bíblia, isto é, usando as línguas originais para ajudar na interpretação da bíblia e de outros escritos.
Como podemos ver o conhecimento das línguas originais era de extrema importância para Lutero. Sua compreensão de algumas verdades bíblicas tornou-se possível mediante o uso que ele fizera dessas línguas. O mesmo pode acontecer com aqueles que reconhecem a importância do hebraico e do grego na interpretação das Escrituras.
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¹- Disponível: www.opc/machen/MachenGreek.html                
²-Disponível:http://bible.org/article/place-greek-and-hebrew-minister%E%80%99s-education.
³ Martin, Luther. An excerpt from: To the Councilmen of all Cities in Germany that they Establish and Maintain Christian Schools. 1524. Disponível em:< http://faculty.tfc.edu/juncker/GRK453LutherOnLanguages.pdf>. Acesso em :15 mar. 2013.
4- Rega e Bergmann.Noções do Grego bíblico. Vida Nova.2004, p.1

5- http://www3.est.edu.br/publicacoes/estudos_teologicos/vol4601_2006/et2006-1a_mkrahn.pdf
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