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Introdução conceitual à doutrina da Santificação: o que ela não é


A história tem revelado as mais variadas interpretações e equívocos cometidos contra essa doutrina bíblica. Como exemplos desses equívocos cita-se a devoção monacal e o ascetismo. Houve casos em que os crentes pensaram que o corte do convívio com o mundo era de fato uma atitude eficaz e mesmo necessária para a sua santificação. Faziam a castração dos laços de sociabilidade, pensando que esse era o meio através do qual o cumprimento do “tornai-vos santos” se efetuaria. Alguns, inclusive, tornaram-se pessoas mal-humoradas com a vida, como se essa atitude pudesse de alguma forma contribuir para fazê-los “santos”.

Alguns anos atrás aqui no Brasil um número considerável de evangélicos entendiam a santidade como uma obra que se realizava mediante a obediência a algumas regras estabelecidas por suas denominações. Algumas dessas regras incluíam: a proibição do corte de cabelo e o uso de batom para as mulheres; o uso de bermuda e a prática de alguns esportes para o homem, como o futebol. As igrejas que estabeleciam essas regras puniam os que não a obedeciam com a EXCLUSÃO do rol de membros. E foi assim por muitos anos, há quem diga que ainda o é em muitas igrejas. Como se pode perceber um tema tão importante para o crente, tornou-se em pedra de tropeço para muitos.
Eis a razão pela qual fui movido a redigir esse texto. E fi-lo, não com linguagem rebuscada, mas buscando ser claro no uso das palavras. Não preenchi o texto com linguagem técnica, o que ocorreria se objetivasse entrar na descrição semântica e lexical dos vocábulos bíblicos para os termos: santo e santificados- não sou fã da tautologia. O estudante com conhecimento médio pode ir a A.A. Hodge e Louis Berkhof e encontrará ali uma boa descrição semântica e lexical dos vocábulos hebraicos e gregos usados para descrever esses dois termos, além de uma exposição da doutrina da santificação à luz da história da igreja. O que se pretende aqui é apenas afirmar três coisas que a santificação não é, a saber: não é erradicação do pecado; não é ascese moral; e não é uma obra na qual só Deus participa. Vamos em frente!

Santificação não significa a erradicação do pecado

Esse é um ponto importante, muitos crentes pensam que a santificação significa a erradicação do pecado, o que é muito próximo de uma afirmação da perfeição. Sustentar tal posição é o mesmo que afirmar que o crente sempre resistirá sem vacilar a todas as influências do pecado, sempre será vitorioso, sem jamais perecer frente a ele. De fato a bíblia afirma que o crente deve resistir ao pecado e à sua influência: Gn. 4.7; Rm 6.6. Mas paralelamente afirma que os crentes não estão totalmente livres dos efeitos do pecado: Cl 3.5; Gl 5.16. Ser uma nova criatura não significa despir-se da velha natureza no exato momento da conversão. O residual do efeito do pecado ainda permanece sobre a vida dos regenerados. Para J.I. Packe: “a obra do Espírito não pressupõe a erradicação total do pecado, mas aponta para uma mudança do caráter divinamente forjado, libertando-nos de hábitos pecaminosos e formando em nós afeições, disposições e virtudes cristãs. A santificação é uma transformação progressiva dentro de uma consagração que se mantém, e que produz uma justiça real emoldurada pela santidade relacional” (Teologia Concisa. Luz Para o Caminho., 1998.p.156).
Santificação não é uma obra instantânea, mas um processo gradual e histórico na vida do crente. A A. Hodge Define-a como uma obra realizada constantemente pelo Espírito Santo pela qual Ele sustenta e desenvolve espiritualmente o regenerado, sujeitando todas as faculdades da alma cada vez mais perfeitamente à influência purificadora e reguladora do princípio de vida espiritual implantado (Esboços de Teologia. PES. p.727).

Santificação não é ascese moral

A.A. Hodge em sua obra: Esboços de teologia, questiona os proponentes de uma escola de interpretação que entendia a santificação como a cessação de uma série de exercícios maus e a inauguração de uma série de exercícios santos p. 726.  É verdade que o novo nascimento significa um viver de modo diferente, isto é, uma vida que reprova os vícios e as obras da carne. Em Cristo o crente deve mesmo abandonar a prática das obras da carne – Gl 5.17-21. Mas isso nem de longe ocorre mediante disciplina moral rigorosa. Não! Santificação não tem nada haver com disciplina moral-Cl 2.20-23! Santificação é um processo no qual o homem e Deus trabalham em conjunto, é o que defenderemos a seguir.

Santificação não é uma obra na qual só Deus participa

Essa é uma verdade importante porque não confunde a ascese moral com santidade, além de chamar o crente à responsabilidade que lhe cabe nesse processo. Pode parecer estranho para alguns crentes a afirmação de que a Santificação não é uma obra monergística (uma obra só de Deus), mas sinergística (uma obra de Deus e do homem). Wayne Grudem está seguro que a santificação é uma obra sinergística, isto é, em que Deus e o homem cooperam para o seu andamento. (Manual de Teologia Sistemática. Editora Vida. 2001.p.359).
Berkhof, todavia, observa que essa cooperação não significa que o homem é um agente independente de ação, mas que Deus efetua essa obra em parte pela sua instrumentalidade. Ele explica: “A santificação tem lugar, em parte, na vida subconsciente, e, como tal, é uma operação imediata do Espírito Santo; mas também, em parte, dá-se na vida consciente, e, neste caso, depende do uso de certos meios, tais como o exercício da fé, o estudo da Palavra de Deus, a oração e a associação com outros crentes”.
E conclui: “O HOMEM NÃO MERECE CRÉDITO ALGUM PELA CONTRIBUIÇÃO QUE LHE DÁ INSTRUMENTALMENTE” (Teologia Sistemática. Cultura Cristã. 2012 p.491,492).
Textos como Gl 5.16; Ef 4.1; Cl 3.5 entre outros parecem de fato apontar para o papel do homem na santificação, e textos como: 1Co 6.11; Hb 13.12 dão destaque ao papel de Deus nesse processo.Pessoalmente entendo que não se pode falar que os pratos da balança estão no mesmo nível, não sou inclinado a pensar assim, pois a bíblia diz : Assim, pois, não depende de quem quer ou de quem corre, mas de usar Deus a sua misericórdia- Rm 9.16.
O entendimento da santificação como obra sinergística parece permitir explicar o porquê ela é mais completa em alguns crentes do que em outros, como destacou Charles Hodge (Teología Sistemática Volume II. Editorial Clie.[espanhol]p. 373,374).

Conclusão
Chegamos ao fim desse breve texto e a conclusão que se deve depreender dele é que a santificação é um dos aspectos mais importantes da nossa salvação, e assim deve ser estudada. E que ela é um processo que o Espírito Santo irrompe na vida do regenerado, mas que não exclui a participação humana. Essa participação, entretanto, não dá ao homem motivo algum para gloriar-se, pois ele é apenas um instrumento de Deus nesse processo.








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